Renascer das minorias nacionais na Europa?

A crise da globalização e dos Estados-nação devolveu centralidade aos projetos das minorias nacionais europeias. Da Escócia à Galiza, identidades regionais reaparecem como resposta ao descontentamento político, social e cultural.

Imaxe: Ifan Morgan Jones – Creative Commons.

31 de janeiro de 1990. Uma multidão invulgar de pessoas congrega-se na Praça Vermelha de Moscovo para presenciar um evento tão único quanto esperado: a abertura do primeiro McDonald’s da União Soviética. Nunca uma sanduíche significara tanto para uma nação nem ocupara tanto espaço nos jornais. As filas eram tão longas que alguns, como a fotógrafa Mitya Kushelevich, demoraram oito horas a conseguir um dos cobiçados BigMac. “Senti como se estivesse a comer a própria América”, lembrava depois um cidadão chamado Andrey. A globalização americana conseguira conquistar o coração do seu maior inimigo sem campanhas militares no seu território, e gabava-se de uma hegemonia global cuja sombra chega até aos nossos dias.

Os anos 80 e 90 presenciaram o auge de um mundo novo e mais interligado pelo comércio, pela cultura popular, pela ideologia, pela tecnologia e pelas instituições. Uma indústria massiva e deslocalizada em países asiáticos homogeneizava os padrões de consumo e produção em todos os aspetos no chamado “primeiro mundo”, e com isso uma parte fundamental da vida dos povos que o habitavam. A expansão da classe média permitia agora viajar, estudar fora, comprar roupa com frequência, estabelecer ligações com gente distante e experimentar comidas de todos os lugares.

Alguns acharam que as identidades tradicionais que estruturaram as sociedades do Ocidente durante séculos começavam a perder o sentido. Num tempo em que as pessoas tinham cada vez mais acesso a tudo o que a humanidade conseguia oferecer, em que as viagens e as migrações eram tão frequentes, porque haveria alguém de ficar preso a uma bandeira ou a uma categoria nacional? Jürgen Habermas apostava que projetos como o da nascente União Europeia conseguissem criar novos marcos políticos que não se baseassem em identidades nacionais, e criassem culturas cívicas plurais e inclusivas. A comunidade política cosmopolita poderia substituir a nação como eixo central do Estado, do mesmo modo que esta substituíra as etnias e as religiões.

Nas duas últimas décadas produziu-se um declínio da ordem global em vários aspetos, assim como a emergência de processos políticos e económicos contrários às previsões finisseculares. A integração internacional entrou numa profunda crise desde 2016, inaugurada pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, que deu lugar posteriormente à erosão da aliança atlântica; e pelo Brexit, primeiro reverso no projeto de unificação europeia. Desde esse ano produziram-se uma invasão em grande escala da Ucrânia, guerras comerciais com a China, a emergência de diversas forças de direita radical eurocéticas e a crise da pandemia de COVID-19, que mostrou as fragilidades de um mundo interdependente.

Na Europa, as novas gerações não conseguem aceder à habitação, formar famílias nem viver do modo relativamente estável e previsível que os seus pais desfrutaram. Ficam preocupadas, como mostram as sondagens, pelas profundas transformações socioculturais que a intensa imigração e a baixa natalidade autóctone estão a provocar nas suas sociedades. Os governos europeus não têm sido capazes de dar resposta satisfatória a estes problemas, devido à perda de dinamismo económico da região, que drena os seus recursos, e ao peso cada vez maior dos sistemas públicos de aposentação nos orçamentos, que infla os gastos. Isto degrada os serviços públicos e piora os padrões de vida. Como consequência, uma sondagem da TUI Stiftung de 2025 concluiu que 94% dos jovens acreditavam que o sistema político do seu país não estava a funcionar bem.

Este é o contexto em que se produziram as eleições locais de Inglaterra e as regionais do País de Gales e da Escócia, em maio de 2026. Nelas observaram-se vários fenómenos marcantes: a perda de áreas industriais e trabalhistas do Partido Trabalhista em favor do direitista Reform UK; a consolidação da crise do Partido Conservador e, enfim, o crepúsculo do bipartidarismo imperante no Reino Unido há já bastante tempo. Mas para nenhum analista passou despercebido o facto de serem as primeiras eleições da história do país em que as três regiões com parlamento próprio vão ser governadas ao mesmo tempo por forças declaradamente secessionistas.

Não estamos a falar de um fenómeno isolado. Em Espanha, as forças regionalistas e os nacionalismos subestatais, que sempre estiveram presentes, avançaram em intenção de voto e representação em áreas como a Galiza e Aragão; consolidaram-se no País Basco com a nova hegemonia da esquerda abertzale, e na Catalunha com o aparecimento de um partido de direita radical anti-imigração autóctone. Inclusive na centralista França existem pesquisas que mostram uma maior preocupação pelas características históricas e culturais das suas regiões, particularmente desde a reforma territorial do ano 2015.

Este aparente renascer das minorias nacionais europeias, canalizado em alguns casos pelo ascenso de forças políticas alternativas, pode ser entendido num contexto mais geral de crise dos Estados-nação e do modelo atual de globalização. No caso do Reino Unido, é claro que intervêm fatores específicos ligados à frustração das promessas do Brexit. A separação da União Europeia não conseguiu recuperar o vigor da economia britânica — muito pelo contrário —, melhorar as condições de vida nem aliviar a pressão migratória de forma satisfatória. De facto, segundo pesquisas da YouGov, hoje a economia e a imigração continuam a ser as duas maiores preocupações da cidadania. Mas outros elementos são estruturais: um estudo do King’s College de Londres mostrou que menos de metade da população britânica sente orgulho no seu país, e registou números preocupantes de mal-estar com as mudanças culturais e as tensões sociais.

A incapacidade do establishment político britânico para construir um projeto atrativo para a maioria da população é comparável à de outros Estados-nação europeus. Como dito anteriormente, parte dessa incapacidade tem a sua origem em fragilidades estruturais do modelo de globalização: desindustrialização e dependência económica, tendência para a homogeneização cultural ou políticas migratórias pouco eficazes. Perante um enfraquecimento da imagem do governo como meio para resolver os problemas, uma parte da cidadania encontra nas identidades nacionais e regionais alternativas mais próximas e mobilizadoras.

A Galiza não é completamente alheia a este fenómeno, e experimenta também uma mudança em termos demográficos e políticos. A crise que atravessamos e os desafios que coloca não podem ser enfrentados com abordagens simplistas nem com passividade ingénua. É preciso avançarmos em soluções autónomas que diminuam a fragmentação social e construam um espaço político integrador e genuinamente galego. O autogoverno pode ser, neste caso, uma ferramenta ao serviço do progresso social, e não mais uma demonstração de divisão e desengano.

O fecho dos McDonald’s na Rússia em 2022, substituídos pela autóctone Vkusno i Tochka, pode ser interpretado como um reverso do otimismo de 1990. Hoje vivemos numa Europa mais fragmentada e instável do que há três décadas, cujo rumo não está completamente esclarecido. Porém, este cenário é uma oportunidade para que os projetos das minorias nacionais europeias consigam provar a sua utilidade àquela cidadania que se vira agora para eles na procura de soluções.

Mais uma vez, a evidência mostra que a história dos povos não é linear. O futuro desenhado no cenário pós-Guerra Fria, em que o galeguismo podia ficar como um fenómeno anacrónico, desaparece como uma ilusão do passado. Mais uma vez, o futuro está nas nossas mãos.

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