Saio do choio para voltar a trabalhar, mais isto é distinto. Umha nova catástrofe ameaça as praias galegas. Desta volta som uns micro-plásticos, chamam-lhes pellets. Galiza, mais umha vez. Quo vadis?

Sábado 6 de Janeiro, primeira semana do 2024. Dia solheiro, com bastante friagem. Hoje a precariedade aperta, mais deixa um bocadinho de margem. Trabalho a horário partido, de 13 a 16 h e de 20.45 a 23.30, a 5,4€/h. O dia anterior, a sexta 5, trabalhei no último dia de descanso da semana na Cavalgata de Reis de Compostela, desfrutando e aproveitando a oportunidade, mais sem dar-lhe ao corpo o descanso necessário, feito que passa fatura ao dia seguinte.

Acordo de manhã, quase sem almoçar, tentando recuperar o descanso roubado ao corpo e à mente. Vou ao trabalho, nom é umha quenda difícil, mais a minha paciência depois de 1 ano e meio vai- se esgotando. Estou farto de nom poder passar mais horas com a minha companheira, com a família e as amizades, trabalhando jornadas partidas que impedem umha desconexom mental do mesmo, ficando até horas da madrugada, sem cear e jantar a horas “normais”, com pouco margem entre as saídas e as entradas.

Ainda assim, hoje nom é mal dia. Está umha das minhas melhores amizades em Compostela, no nosso piso, anda algo baixinho, e temos um plam para a tarde. Nom deixa de ser choiar, mais desta volta é distinto. Saio do trabalho, colho o consumo ao que optamos os dias que trabalhamos mais de 5h porque sei que é mui provável que nom poida preparar o jantar, o tempo vai veloz no inverno, as horas de sol som poucas. Venhem a recolher-me, efetivamente só dou jantado o consumo do Burger King; acerto a colher cousas para poder merendar, nom quero ficar sem comer nada até que volte a entrar no trabalho.

Imos Leda, a minha compi de vida, Álex, a amizade da que vos falava, Naza, a nai de Leda, umha segunda nai (a família de Leda é a minha segunda família, quero-os coma a meus pais e à minha irmã) e eu. Antes de chegar ao destino, fazemos parada em Bertamiráns para colher a Nere, umha amizade da militância, que é um pouco maior que nós e que leva sofrendo a precariedade tuda a sua juventude, a dura realidade da nossa geraçom. Nom temos um destino fixado, imos botando contos de caminho.

Hei de descobrir-vos o motivo da viagem: pretendemos ir recolher os pellets, o conjunto de microplásticos que chegaram às costas da Galiza recentemente. Nom tanto, de feito, apenas tenho conhecimento pessoal desta chegada 2 ou 3 dias antes. Foi por um vídeo do coletivo Noia Limpa, subido nas redes, e por umha nova do Nós Diário.

No carro, debatemos onde pode ser melhor ir, tendo em conta que eu tenho que voltar para trabalhar e que às seis e pouco já se fai nuite. Leda está metida num grupo de difussom para a limpeza das praias; tenhem um Excel criado onde apontam as praias, se há restos dos pellets, se se fixo limpeza e há que continuar ou se polo de agora nom se necessita mais trabalho nelas. Na de Testal comentam que nom há nada, em várias de Porto Doçom a cousa está mais compricada, mais nom imos ir porque nom nos vai dar tempo. Ao final, decidimos ir à de Boa, que no Excel pom que inda que nom há muito, há pellets para recolher, bem vale. Se podemos deixá-la mais limpa, avante sempre.

Aparcamos, colhemos as cousas, Álex vai com umhas catiúscas que lhe deixarom em Laminho, com os tênis que tinha é fodido ir limpar. Baixamos as peneiras, nom sabemos exatamente como de pequenas som, mais nas fotos nom aponta a que se poidam colher facilmente. Levamos também luvas, e algum coador, nengum trebelho sobra. A praia e a zona do redor está baleira, só nos topamos com um pai e duas rapazas, umha família que vêm de limpar, Naza conhece ao pai da banda de música de Briom. Perguntamos-lhes como está a situaçom e nos dim que só estavam eles/as limpando, e que temos para recolher, que nom é como nas praias de final da Ria, mais que temos trabalho abondo.

Baixamos até à praia, vai friagem mais por sorte o vento está calmo, a humidade é a clássica nossa, traspassa a roupa e cala até os ossos. Teremos umha hora longa para trabalhar, o sol inda têm algo de presença. De primeiras, nom olhamos nada raro, serám tam pequenos como dim? Continuamos, há outro tipo de plásticos, restos de esferovite, paus de plástico que saem das bateias, (longe quedaram os tempos onde se usava madeira de eucalipto) botelhas e demais ghaldrumada.

Há também concentraçons de bivalves mortos, por fim olhei o que tanto me contaram e tanto escuitara nestes últimos meses, a alta mortandade do marisco nas nossas Rias. Se isto era na começo da Ría de Noia, como andaram as cousas na de Arousa ou mesmo na nossa, na de Ponte Vedra.

As primeiras pesquisas som infrutuosas, nunca tivemos diante os pellets, perguntamo-nos as umhas às outras se isto é umha pedrinha ou o raio este, até que descobrimos umha agrupamento destes muito longe da primeira linha de água, na parte mais alta da areia. A mareia deveu de arrastrá-los até aí, inda se aprecia a barreira da maré alta.

Som mui pequeninhos, a cor entre transparente e branca. Nom usamos luvas, sabemos que polo que dim podem ter níveis de toxicidade polos aditivos que contém, mais eu digo (pensando para mim) que bastante merda tenho eu nas mãos quando lavo no trabalho, com produtos tóxicos, e inda seguimos por aqui. Nom é umha masculinidade minha, de estar enfejo em que há que curtir-se e parvadas dessas, é simplesmente que o tamanho fai que com as luvas seja quase impossível poder agarrar ou arrastrá-las. Imos pouco a pouco, baixando o lombo, a cada palmo de areia, com as peneiras, sacudindo a areia para que fique a bolinha, assim percorrendo tuda a praia, ao tempo que botamos algum conto para nom pensar na merda que se nos vêm riba.

Somos os únicos na praia, unicamente passam 6 pessoas mais no tempo que limpamos; duas mulheres boomers com a atitude em parte maioritária na nossa sociedade, indo a cheirar que fazíamos, deixando comentários banais, sem atitude algumha de baixá-lo lombo e vir-nos a ajudar, e deixando algumha frase de apoio passivo que a nada leva; e umha segunda parelha de companheiras, da mesma geraçom, muito mais ao dia do assunto, com umha atitude mais ativa, mandando folgos e comentando que já buscaram com anterioridade nos areais da contorna.

As últimas pessoas que nos acompanharam foram um pai e o seu filho adolescente, que nos ajudaram a colher algumha botelha, advertindo-nos de que no começo da Ria polo momento havia poucos pellets mais sim muita povoaçom de bivalves morta. O tempo vai passando, o sol-pôr deixa umha estampa fermosa e o cormorám adentra-se na Ria; foi boa idéia virdes para viver este momento.

A nuite já é quase pecha e temos que nos retirar, e a sensaçom de valeiro, de que esta limpeza espontânea vai ter que ser umha constante invade-nos a tudas. A ameaça que se cerne sob a nossa costa é mui fodida, este material é muito pequeno, nom se pode remover a areia e levar os sedimentos naturais da praia, há que fazer umha lavoura de formiguinha, para ao final juntar pouco menos de 250 bolinhas (a olho) nas peneiras, mais há que seguir.

O ano passado fixo 20 anos da catástrofe do Prestige. As instituiçons daquelas eram presididas pola mesma organizaçom política, o PPdeG. Seguem sendo os mesmos a Janeiro de 2024. As atitudes, as mesmas, o jeito de reagir, o mesmo. Negar as evidências, ocultar a informaçom à povoaçom, e de novo o povo, a classe operária, é a primeira em mover a peça no tabuleiro e com as poucas armas de que dispom vai tentar paliar este desastre.

Os responsáveis deste novo acontecimento, deste nova ameaça à costa galega som vários; em primeiro lugar, a transnacional Maersk, a proprietária do container; a empresa polaca (Bedeko Europe) que supostamente era a depositária do contido, das sacas de pellets; a empresa armadora Toconao (quem perdeu numha trevoeira o material) e as instituiçons, tanto a galega (Junta) como a espanhola (Governo), com a sua ineficácia e ocultamento ao povo, e a sua falha de reaçom; e por último, e já a modo estrutural, este atual estado de cousas, o sistema capitalista, na sua fase ultra neo-liberal, com um mercado totalmente globalizado, e o tratamento da costa galega coma depósito de lixo marinho, numha das rotas comerciais marítimas mais transitadas do planeta, a do Atlántico Norte.

Seja como for, a situaçom nom é nada boa, e há que trabalhar em consequência. Fai mais de 20 anos já se mobilizou o povo, à margem das instituiçons, com quase os mesmos atores intervindo, com a mesma organizaçom política que agora, e a gestom daquela catástrofe levou à sua derrota nas Autonómicas do 2005.

Agora, volve a haver um comício eleitoral, o 18 de Fevereiro fam-se as votaçons para a 12a legislatura. Os azuis levam governando 36 dos 42 anos da Autoanemia galega, conceito muito acertado usado polo Beiras. Na política, e mais na conceiçom liberal, tudo ou quase tudo vale, e as distintas organizaçons botam-se o lixo as umhas às outras, mais o que é inegável é que umha delas volta a ocultar a realidade, a nível galego, e a outra em parte também, a nível estatal.

Esse domingo cada quem decidirá o que quere para a Galiza dos próximos 4 anos, seja votando ao PPdeG, ao Bloco, ao PSdeG, Sumar, Podemos, Democracia Ourensana, etc, ou mesmo apostando por umha abstençom, ativa ou passiva. Ao final, como diz o título do disco de Liviao de Marrao, que cada cam se lamba a sua caralha. Se som interpelado ao respeito, eu irei a votar, sem muito convencimento, assumindo a contradiçom desde os meus postulados libertários, mais sim que considero que anque seja a nível formal, institucional, do sistema, umha renovaçom de aires por Sam Caetano nom vinha nada mal. O tempo dirá, se Fevereiro será um mês de remudas ou de continuaçom do mesmo.

Rematando e voltando ao fio originário do artigo, o povo galego deve de ser ciente da que se vêm riba, a catástrofe volta a assolagá-las nossas praias, já a temos dende o Minho até Ortegal, e como diz umha velha (e sempre presente) consigna revolucionária, só o povo salva ao povo.

Quo vadis Galiza, mais umha vez.

 

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