Segunda entrega da coleçom «Diário dum neofalante». Um percurso pola intra-história da língua e o país, dende umha perspectiva ligada à memória familiar, tendo como fio narrativo à segunda geraçom do autor.

Referência da imagem: foto da vivenda do casal, em Mourente.

Este é o segundo artigo da coleçom, no qual pretendo por meio da memória familiar fazer apontamentos e consideraçons sobre a realidade sociolinguística do país, e mais em concreto da minha comarca, Ponte Vedra. Assim mesmo, falar da gênese, do pouso que me foi transmitido e que em boa parte ajudou à minha incorporaçom como neofalante, como galegofalante. Na anterior história da coleçom fazia referência aos meus bisavós, a primeira geraçom familiar da que puidem obter dados claros. Continuando polo tanto nessa linha temporal, este artigo vai sob a geraçom dos meus avós.

Ao igual que no primeiro artigo, uso como referência o livro de Xerais «A língua galega na cidade no século XX». Começando com os dados referentes à primeira língua em Ponte Vedra [1], colhemos o tramo de idade no que se enquadram os meus avós, 1927-1936. O conjunto global do concelho deixava 26,9% de castelhanofalantes iniciais, 9,6% de bilingues e 63,5% de galegofalantes. No caso da cidade, 60% de castelhanofalantes, 10,1% de bilingues e 30% de galegofalantes. Pola contra, no eido periurbano, nas freguesias e nos bairros periféricos, os dados som muito favoráveis ao galego, contando com 8,6% de castelhanofalantes, 11,4% de bilingues e 80% de galegofalantes.

Estabelecendo umha comparativa com a geraçom anterior (a dos meus bisavós), observamos que se bem houve umha caída no uso do galego, a transmissom intergeracional estava muito viva, já que as baixadas no conjunto do concelho som de 10,5% no caso dos galegofalantes, aumentando os bilingues em 6,1% e os castelhanofalantes apenas 4,9%.

Na geraçom dos avós, polo tanto, o galego era ainda maioritário, quanto mais fora do núcleo urbano pontevedrês. Na cidade, de facto, o galego melhorava timidamente a sua posiçom, já que a povoaçom galegofalante e/ou bilingue passava de 33,4% a 40,1%, mudança provavelmente motivada pola migraçom de contingentes humanos chegados das freguesias da contorna. Nas freguesias, onde mais se acusou a baixada, a língua continuava sendo amplamente maioritária, sendo utilizada por 91,4% da povoaçom, aumentando os castelhanofalantes 5,7%. Este foi o quadro sociolinguístico no qual se criaram as minhas avós, no que estavam inseridas, sendo o galego a língua habitual e comum. Porém, nas suas vidas sempre operou um fator que marcaria esta geraçom, provavelmente com mais intensidade que nas antecedentes; a diglossia.

Feita esta primeira parte, mais teórica e com dados, passarei a comentar de jeito mais prático comportamentos e realidades linguísticas tocantes a esta geraçom, tomando como exemplo os meus familiares mais achegados; a minha avó Concha (1928) e o meu avô Emiliano (1932-2013), originária a primeira do contexto das freguesias rurais do Concelho, Mourente neste caso, e o segundo do Gorgulhom, bairro periférico mais já enquadrado no que se entendia como a cidade, ou o núcleo urbano pontevedrês. A minha avó Concha é a filha dos meus bisavós Concha e Manuel, protagonistas do primeiro artigo da coleçom, originários ambos da freguesia (noutrora Concelho) de Mourente, nada no 1928 na própria casa familiar da Seca. A sua infância e adolescência foi, à excepçom da escola, quase íntegra em galego, já que a transmissom da língua por parte dos progenitores foi total, ao igual que com o resto de irmãs. Porém, as circunstâncias sociopolíticas que lhe tocou viver fixeram que a diglossia fosse umha companheira constante ao longo da sua vida. Foi umha nena nascida no final da ditadura de Primo de Rivera; os seus primeiros recordos já som da II República Espanhola, onde a educaçom tinha um papel muito relevante. A casa familiar foi também escola, sendo ela mesma aluna, e com tam só 8 anos viveu o golpe de estado fascista de 1936. Ao ser consultada polos anos da guerra, ainda hoje em dia conserva o recordo dos passeados, já que um dos muros utilizados polos falangistas locais estava justo debaixo da sua casa, à beira do Leres. O período da pós-guerra foi terrível em geral, e o galego nom escapou à repressom. A minha avó recorda muitos episódios de ataques ao galego, altamente perseguido fóra do eido familiar, sofrendo umha persistente autocensura linguística.

Esta repressom levou a que com as irmãs maiores e com os seus pais e familiares maiores falasse em galego, mais com as suas irmãs pequenas a comunicaçom fose quase em exclusivo em castelhano, assim como as interaçons que fazia na própria cidade. O galego era um espaço reservado para a família, a feira (feita até fai 3 décadas na atual Praça de Barcelos), e festas e romarias, coma a de Sam Cibrám, em Tomeça, ou os bailes da Cultural de Salcedo, aos quais ia de moça.

O outro referente do artigo é o meu avô Emiliano, falecido fai umha década, e cuja relaçom com a língua poderíamos definir de quanto menos curiosa. Os seus pais, os meus bisavós Aurélio e María, foram labregos manchegos, analfabetos, vidos à Galiza (à Ponte Vedra concretamente), nos tempos da II República Espanhola, ao conseguir Aurélio umha praça de limpador de rua na cidade. Também foi o matachim do Gorgulhom. A sua primeira filha nasceu na Mancha, mais o segundo filho (Emiliano) nasceu já em território galego, no ano de 1932.

A língua materna do meu avô foi deste jeito o castelhano, já que os seus pais nom eram galegos e nunca aprenderam a língua. Porém, fóra da casa a sua língua habitual na infância e na adolescência foi o galego, obviando o eido escolar. Com as suas amizades, no bairro do Gorgulhom, à beira do Gafos, a língua dos jogos era quase em exclusiva o galego, assim como nos bailes e nas atividades de lazer. Foi, de feito, a maior referência galegofalante da minha infância, já que falava muito mais galego com os seus netos do que a minha avó, a única de raízes galegas.

Quando casaram meus avós, no 1960, entre eles falavam em galego, mais ao igual que a maior parte da sua geraçom, racharom com a transmissom da língua e nom lho falarom às suas crianças mais que de jeito pontual e anedótico, ainda que mantiveram a língua entre eles e com pessoas da sua mesma idade. Este feito continuou com as suas netas e netos, dos quais só eu e em parte minha irmã (bilingue, mais nom monolingue), recuperamos o galego como a nossa língua e a nossa canle de expressom habitual, ocupando o valeiro deixado pola geraçom boomer criada e socializada em castelhano, ainda que com um entorno muito mais galeguizado do que o nosso.

[1] Rei-Doval, Gabriel, “A lingua galega na cidade no século XX. Unha aproximación sociolingüística”, Ed. Xerais, Vigo, 2007, pp. 400-402.

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